Uma perdida na cidade grande

Tem algumas coisas sobre São Paulo que já descobri. É um grão de areia no oceano das minhas ignorâncias, mas já são um começo. Ainda não sei pegar ônibus direito, nem pagar táxi no cartão de crédito, muito menos entendi pra que lado ficam os lugares, cartograficamente falando, em relação a Perdizes. Também não sei o que vou fazer com a recente descoberta de que é só tu saíres de casa um pouco mais arrumadinha para os caras ficarem te secando na cara dura. Não me comporto direito com esse tipo de indiscrição, faço um esforço inumano pra não olhar pra pessoa e mostrar meu dedo médio em riste. _|_, vai tomar no #&, seu filho da pu#& do car#&%*!!

Mas tem coisas bem menos agressivas do que uma falta de controle frente a olhares sem noção. No meu primeiro dia aqui saí à tardinha pra comprar algumas coisas no mercado e na farmácia. Enquanto voltava pra casa vi meu primeiro por-do-sol paulistano, e ele era vermelho.

Na Itália tem um ditado que diz que rosso alla sera, buon tempo si spera; rosso ala matina, la pioggia è vicina. Em português significa que quando o céu fica vermelho no anoitecer o dia seguinte vai ser de tempo bom e quando fica vermelho no amanhecer é porque vai chover em pouco tempo. Pois bem, nada de novidade até aí. O que rola é que eu não sabia que em São Paulo o sol também se punha colorindo o céu… Foi uma surpresa super bonitinha. Como se São Pedro, padroeiro do meu querido Rio Grande, estivesse me dando as boas vindas aqui nessa terra de louco.

Outra coisa que eu reparei foi que quando o dia vai chegando ao fim, sempre parece que vai chover. Como se o tempo se armasse pra descer o mundo, mas não acontece nada. Na primeira vez que aconteceu não achei nada de mais. Na segunda, fiquei supresa. Na terceira, estarrecida. Na quarta, vi que era um padrão e parei de me preocupar.  Daí me veio à mente uma coisa que a Robertinha tinha falado uma vez sobre poluição. Não lembro mais o que era, mas ela tinha dito, com toda aquela condescendência que meus amigos usam comigo frente minha ingenuidade, algo tipo “não é nuvem, Carol, é poluição”. E aquelas nuvens que eu achava que eram de chuva… que nada, puro monóxido de carbono acumulado no fim do dia.

Pois é. Ganhei anoiteceres vermelhos, mas junto com eles vieram nuvens de poluição. Ao menos, nos dias bons, de céu mais ou menos limpo, dá pra enxergar os morros depois do fim de São Paulo aqui da janela do meu quarto…

Comentários (2)

Novo endereço

Rua Caraibas,

Perdizes,

São Paulo.

Comentários (1)

Alguma coisa acontece no meu coração

A Tici sempre diz que enquanto eu não for pra São Paulo nunca vou sossegar. Concordo com ela. Acho que preciso encarar essa cidade nem que seja pra chegar um dia e poder dizer “fui e deu merda, mas ao menos sei que tentei”. Essa é a história da minha vida, na real. Ter medo do fracasso e postergar as decisões até que elas prescrevam ou percam a atração. Dessa vez não vai acontecer. Florianópolis está com os dias contados pra mim, com deadline para ser trocada pela Paulicéia assustadora.

Nem tão assustadora assim. Eu adoro São Paulo. (Ia escrever “amo”, mas me pareceu falso dizer isso sendo que nunca conheci realmente a cidade.) Gosto de andar nas ruas, da sensação de nunca passar pelo mesmo lugar, e de, mesmo na maior metrópole do Brasil, ter a chance de encontrar um conhecido em plena Avenida Paulista (sim, aconteceu comigo). Acho que gosto até daquele sotaque nojento. Mas a coisa que mais gosto, sem sombra de dúvida, mesmo mesmo, é saber que boa parte dos meus amigos está lá.

Vai ser legal. Boto fé que vai ser melhor do que meus últimos meses aqui em Floripa, meio solitária, sem gosto pelas coisas e vendo a melhor fase da minha vida (blargh!) passar por mim. Claro que terei desafios pela frente. Morar numa cidade violenta vai ser uma novidade pra mim. (É difícil dizer qual cidade é mais tranquila, se Floripa ou Panambi. Acho que Floripa.) Encarar distâncias absurdas é novo também (por mais que Florianópolis não seja um lugar onde as coisas são exatamente perto umas das outras). Na verdade, não saber fazer nada em São Paulo e nem poder parecer perdida me manterá bem ocupada nos primeiros tempos, imagino eu.

Ontem a Tici (sempre ela! =D) me deu um tapa na cara quando falou que dia 31 (meu último dia de trabalho aqui na revista) é sábado que vem. Não tinha me tocado que esse mês passou tão rápido. Ainda tenho bilhões de coisas pra fazer e não comecei nem a pensar na mudança. Preciso arrumar umas coisas do carro (que vai pra Panambi por uns tempos [enxuga lágrima]), formatar o computador (o que vai dar um mega trabalho, porque preciso fazer faxina nele também) e decidir o que levar. As decisões se aproximam e eu nem tinha reparado.

Claro que nem tudo é tão sem planejamento assim. Estou contando com os três meses de seguro desemprego que vou receber e já disparei emails pra pessoas que costumam me passar frilas. Também tem a possibilidade de eu conseguir um esquema de trabalho com o Tiagão. Fora isso, vou mandar currículos, catar ofertas de emprego nos blogs e twitters da vida e pensar em pautas pra tentar emplacar.

É certo que todos os meus amigos passaram por essa etapa um ano atrás enquanto eu matava cachorro a grito em Florianópolis. É clichê, mas todas as experiências são válidas e não acho ruim ter ficado esse ano aqui. Assim como nunca vou me arrepender de nem ter tentado ir pra São Paulo, visto que estou indo, nunca vou poder me arrepender de ter ficado em Floripa. Trabalhei aqui, botei experiência no meu currículo, na minha capacidade automobilística e curti um ano bem tranquilo. Queria ter juntado mais dinheiro, mas não é possível fazê-lo nessa cidade.

Outro saldo positivo, o melhor deles, foi ter descoberto o que mais gosto de fazer no jornalismo. Era o que eu achava que era – escrever para revista –, mas com essa certeza já dá pra direcionar a carreira com mais segurança. Obviamente vou topar o que me aparecer pela frente, mas é muito mais fácil correr atrás de um futuro legal sabendo o que se quer fazer no resto da vida. Resto da vida? Ok, exagerei. Escrever para revista é o que quero fazer nos próximos anos, mas não é um objetivo excludente. E um recadinho especial para meus amigos: não esqueçam de me mandar propostas de emprego.

E vamo que vamo!

Deixe um comentário

Me identifiquei

Mulheres nos EUA passam mais tempo no PC do que com namorado, diz estudo.

A única diferença, no meu caso, é que o namorado da questão ainda não nasceu.

Comentários (1)

Era uma vez… o respeito pelos outros

Ontem à noite fui cinema ver Era uma vez…, o novo filme do Breno Silveira, o cara de Dois Filhos de Francisco. Fazia um tempão que eu queria ver Era uma vez…, um filminho lindo sobre uma história de amor entre um cara do Morro do Cantagalo e uma guria de Ipanema. Com todos aqueles clichês de história de amor impossível, pais que não aceitam as diferenças sociais entre o casal, irmão bandido e o Nordeste como destino de uma fuga, o filme valeu o investimento. Gostei, mas já sabia que ia gostar.

O que eu não gostei, de fato odiei e acabou com minha noite, foram três gurias sem noção, sem a menor noção, sem a menor sombra de noção!, que sentaram na fila atrás de mim no cinema. Não pararam de falar, NÃO PARARAM DE FALAR um minuto sequer, e falar alto, como se estivessem assistindo a novela na sala de casa. Ah, sempre tem gente que fala no cinema, não tem o que fazer. Mas falar alto durante todo o filme, desrespeitando quem pagou R$ 8 pra ter um momento de prazer é um absurdo! ABSURDO.

Pior foi o final. Não vou estragar contando, mas rola uma emoçãozinha, talvez umas lagrimazinhas inclusive. Na hora do desfecho sobe o som e a imagem vai afastando, mostrando a aglomeração de jornalistas e curiosos ao redor da cena. Não é que as gurias atrás de mim começaram a berrar, BERRAR!, mais alto que a música do filme, comentando o final??? Tinha uma delas que ficava dizendo “Romeu e Julieta, Romeu e Julieta!” obsessivamente, como se tivesse feito A descoberta do ano! (Ok, contei o final.) Tapei os ouvidos com as mãos e tentei não ouvi-las, não ouvir a música do filme, não ouvir nada, pra ver se conseguia aproveitar o finalzinho do filme e não destruir a imagem que tinha ficado dele.

Por que tem gente que faz isso? Será que as pessoas não se tocam o quanto são mal educadas com esse tipo de atitude? Morro de vergonha de virar pra trás e pedir silêncio pra gente que não conheço porque sempre acho que alguém que fala durante o filme é bem capaz de armar barraco no cinema, e fujo de briga em público que nem diabo foge de cruz. Mas sempre saio frustrada, braba, com vontade de dar soco em alguém. Por que acabar com a noite das outras pessoas desse jeito? Não sabe viver em sociedade?

Por isso que eu gosto do CIC - com fedor de mofo, cadeiras rasgadas e filmes que já saíram de cartaz há meses, mas pessoas inteligentes dentro.

PS.: Na hora de ir embora, elas começaram a falar em “amarelinho”, “táxi”, “ônibus”. Ri por dentro, segurando a chave do meu carro. Uma pequena vingança, mesquinha, baixa e vil, mas uma vingança.

Deixe um comentário

O mar

Todo mundo que é de Floripa e vai embora, especialmente pra São Paulo, costuma dizer que a coisa da qual sente mais falta é o mar. Eu não sou daqui: sou das coxilhas do Rio Grande, do pampa no noroeste gaúcho, distante mais de 400 km do Oceano Atlântico. Por isso não tenho grandes dependências do mar. Pra mim ele significa verão, férias, família reunida, areia no meio dos dedos do pé, fila pra tomar banho depois da praia. Às vezes passo dias sem me dar conta que moro no litoral.

Mas é bom saber que o mar está ali. Hoje mesmo passei um domingo bem estranho, meio deprê (como, aliás, vem acontecendo com uma freqüência perturbadora), meio desiludida com minha vida atual. Precisava fazer alguma coisa, acabar com aquela agonia de alguma maneira. Já almoçara no meu irmão sem poder curar a tristeza com a presença da minha sobrinha, que não estava. Em casa não podia ficar, porque aí o bode ia bater mesmo. Peguei o carro e me mandei pra praia.

Fui pra Jurerê dar uma olhada no apartamento que compramos – sim, saiu o negócio, finalmente. Olhar por fora, bem entendido, porque não tenho a chave e o porteiro não estava lá. Aproveitei e dei uma chegada na praia, onde gastei um tempo só olhando o mar… Não consegui mais tirar o sorriso da cara. As ondas quebrando, as cores da água, a areia arrastada pelo vento, a solidão… tudo me trouxe uma paz muito grande. Mesmo que junto com o som da arrebentação viesse o de uma rave que rolava ali por perto. Ok, nem tudo é perfeito.

Tem um trecho de Os Cus de Judas, do escritor português António Lobo Antunes, que diz assim: “O movimento das agulhas de tricô da minha mãe, segregando camisolas num tinir de floretes domésticos, possui pra mim o inesgotável encanto do fogo na lareira ou do mar, cuja monotonia sempre diversa me hipnotiza”.

Sei bem o que é ficar sentada por horas na frente do fogo em uma noite fria, só olhando a dança das chamas, a madeira lentamente virando cinzas, sentindo o cheiro de picumã e ouvindo o crepitar das lenhas. Por isso talvez eu sinta que essa frase resume algo que eu sempre soube mas nunca consegui traduzir em palavras: o fato de esses dois elementos, a água do mar e o fogo na lareira, tão contrários como a lua e o sol, exercerem o mesmo fascínio sobre mim. Eles são sempre iguais, mas sempre diferentes. Uma monotonia sempre diversa, e que hipnotiza.

E foi nessa hipnose que eu consegui melhorar de humor. Olhando pro mar, que é o que mais se aproxima do fogo na lareira dos invernos da minha infância.

Comentários (1)

Saudade

Não criei um blog pra me estressar. Não criei mesmo. E se todo santo dia me bate uma enorme sensação de culpa por ficar dias, semanas, milênios, eras sem atualizar o Maria, dou logo um jeito de abafar o sentimento. Na tendência de arrependimentos súbitos, cansaço mental e preguiça de escrever, quase imitei a atitude da Keka e assassinei o blog. (Na minha opinião, o dela era o mais gostoso de todos.) Mas, para felicidade de todos e alívio geral da nação – quiçá do mundo -, estou de volta.

Às vezes caminho na rua e vejo coisas bizarríssimas que merecem ser registradas aqui – como um carrinho de cachorro quente vermelho com o logotipo da Ferrari, sempre estacionado do lado da Padeiro de Sevilha quando vou pra casa.  Coisas que acontecem comigo e gostaria de falar pra mais gente, não só pra Tici e pra Keka no gtalk – como minha incursão pelo mundo das frituras, quando fiz calça virada (ou orelha de gato, é isso?) e ficou uma delícia.

Que a Enite vai voltar a fazer faxina lá em casa. Que a grana dos frilas está caindo agora, mas não tenho outras matérias em vista, o que me preocupa mais do que admito. Que tive que levar o Roberto no Kobrasol segunda e peguei o primeiro engarrafamento da minha vida. Que ontem teve despedida da Pri, que embarca pra Espanha no fim de semana, e é tão legal poder colocar uns papos em dia e ouvir todo mundo reclamar que, como sempre, estou atrasada.

Ah, a última novidade dessa pequena atualização: vou começar a fazer tai chi chuan! Não é lindo?

;-D

Comentários (1)

Posts mais antigos »