Arquivo para Fevereiro, 2008

Banguela só amanhã

Às 14h30 desta terça vou extrair meus sisos. A tia Suzi, mãe da Tici, me lembrou que são os dentes do juízo. Com tanto juízo nesse corpinho, quem precisa de quatro dentes que o reforcem? Por isso vou tirá-los.

É, bem capaz. Vou tirar porque a Solange, minha dentista, mandou. E nada de tortura prolongada, o negócio é curto e grosso, os 4 de uma vez. Vai ser sofrido comer pela semana que vier, mas não tenho tempo a perder pra ficar um tempão de molho entre uma cirurgia e outra, coisa que aconteceria se eu tirasse os sisos de 2 em 2. Preciso ir logo pra São Paulo e começar a trabalhar.

Só sei que hoje a mãe foi no mercado e voltou com uma sacolona cheia de danoninho, chandelle, aqueles iogurtes de litro, gelatinas… Nada como entrar pra faca - ou pra broca, nesse caso - com mamãe e papai por perto, né?

PS.: A propósito, não há som na Via Láctea que eu deteste mais do que barulho de broca. Valha-me, anestesia.

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Vrummm vrummm, bip bip!

Bem que eu gosto duma onomatopéia, mas essa aí é indispensável pra contar a maior novidade de todos os tempos da minha vida no último mês: ganhei um carro! Um Ka preto, desses novos, lindo lindo lindo.

Cheguei em Panambi - tinha passado umas duas semanas em Floripa com minha irmã - lá pelas 6 da tarde do domingo. Meus pais estavam na frente da casa tomando chimarrão e olhando o (pouco) movimento, típica ação de domingos à tarde em cidades do interior do Rio Grande. Cumprimentei-os, deixei minha mala no quarto e voltei pra lhes fazer companhia. Muito inocentemente meu pai pediu que eu fosse buscar o chinelo dele na garagem.

- Ah, pai, tô cansada da viagem, dá um tempo…

- Vai lá, filha, eu também tô cansado, trabalhei o dia inteiro… – disse-me ele com uma cara de quem implora.

Ok, tudo bem. Fui pegar o chinelo na garagem. A porta da lavanderia estava fechada, como às vezes fica quando o portão da garagem está aberto para que não entrem moscas na casa. Por isso, não estranhei que a divisória da lavanderia estivesse cerrada e a abri sem pensar duas vezes.

Quase atropelei meu carro. Ele estava bem perto da porta porque do outro lado fica o carro da minha mãe e a garagem não é tão grande a ponto de sobrar espaço quando os dois automóveis estão lá dentro. Tomei um susto enorme. Não dava pra ver que carro era e fui direto na traseira: um Ka. Saí correndo da garagem e fui pra frente da casa, onde meus pais estavam:

- De quem é esse carro? É meu? É meu? – eu falava, tremia e quase chorava, um pouco por alegria e muito por medo de o carro não ser pra mim.

- É pro posto – meu pai disse (ele tem um posto de gasolina).

- Ah…

Fiquei estaqueada na sala. Meus pais já riam um pouco, minha irmã também. Mas eu não via nada disso, não entendia nada, só tentava esconder a decepção.

- Não é meu mesmo?

- Não… É teu mesmo, é teu…

Ah, daí virou festa. Corri abraçar e beijar todo mundo, achar a chave, abrir todas as portas, portinholas e compartimentos, sentar em todos os bancos, notar todos os detalhes… Eu já esperava que em algum momento depois de formada meu pai me desse um carro. Foi assim com meu irmão e com minha irmã. Mas os dois só ganharam o carro depois que estavam trabalhando, a fim de poderem sustentá-lo (é essa a filosofia do meu pai). Eu fui uma exceção em relação a eles, pois ainda sou uma estatística entre a universidade e o primeiro emprego. É mais privilégio, mas acarreta mais responsabilidade. A questão é: o que vou fazer com meu lindo, maravilhoso e novo Ka quando o combustível acabar?

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Pagando dívidas com juros

A última vez que postei (faz tanto tempo que nem mais verdade é…) linquei uma matéria que tinha saído no Estadão. Dentre os comentários tinha um da Sara, avisando que no Novo em Folha saíra uma entrevista com o repórter justamente sobre a matéria que eu postara. O Novo em Folha é um blog mantido pela Ana Estela, editora de treinamento da Folha de São Paulo – a mulher por trás do trainee do jornal – e sempre tem coisas bem legais sobre todas as etapas da produção de uma reportagem, desde a pauta até a edição. (E o melhor: ela também posta sobre matérias que saíram em outros jornais, como nesse caso, em que a matéria foi publicada no Estadão.)

No post que a Ana Estela escreveu sobre a matéria ela diz que a leu e ficou curiosa pra saber como o repórter Emilio Sant’Anna tinha achado a pauta. De fato também foi uma coisa que me chamou a atenção – como nunca ninguém tropeçou nesse cara?! Essa questão me veio especialmente porque vai bem ao encontro do que eu e a Tici fizemos no nosso TCC, catar pautas em cidades à beira do São Francisco em Pernambuco. A única diferença, nesse caso, é que não estamos em uma cidadezinha de nada perdida no sertão, mas em um dos maiores hospitais da América Latina. É aquela coisa, no jornalismo a gente se acostuma a cumprir as pautas que o editor manda sem pensar muito que ao olhar pro lado é bem capaz de acharmos histórias maravilhosas.

 A entrevista da Ana Estela com o repórter Emilio Sant’Anna eu chupei do post do Novo em Folha, de 31/01/2008.

Fiquei muito curiosa para entender como foi, afinal, que o Emílio encontrou essa história. Abaixo, segue uma conversa que tive, por e-mail e telefone, com esse repórter de 28 anos que nasceu em Botucatu (SP) e, como eu, estudou agronomia antes de virar jornalista.

Novo em Folha – Como você descobriu a pauta? Parece incrível pra mim que um homem viva há 39 anos no HC e ninguém nunca tenha sabido disso!

Emilio Sant’ Anna – Essa pauta surgiu no ano passado. Fiz uma matéria sobre uma UTI especial para crianças que têm pouquíssimas chances de sair de lá algum dia. Depois disso fiquei curioso para saber qual era a outra ponta dessa história: os adultos que passam a vida em um hospital. Acabei chegando ao Paulo e a Eliana.    

NF – Você percebeu de cara que era uma ótima história?

ESA -  Percebi de cara que poderia render uma boa pauta por um motivo: a história deles é muito boa, só precisava de alguém para contar. Quando saí do quarto dos dois fiquei louco para escrever logo a história, mas queria um tempo maior para conhecer mais da vida deles. Quis “mergulhar” o máximo possível na rotina deles. Por esse motivo, confesso, esperei para poder fazê-la.

Uma semana antes de sair de férias, fui ao hospital para entrevistá-los.  Voltei no primeiro dia das minhas férias e passei a tarde inteira com eles, ultrapassando o horário de visitas e ainda voltei mais uma vez. Isso me ajudou a entender um pouco do mundo deles, suas necessidades e, principalmente, suas angústias.

Da última vez que fui lá, acabei conversando por um bom tempo sobre coisas diversas, não só sobre a vida deles.

Mas tem uma coisa: não queria me passar por amigo deles. Eles sabiam o que eu estava fazendo ali, apenas procurei deixar eles à vontade e eu também. 

NF – Você não ficou com medo de ser furado? Com uma história tão boa, não teve medo que alguém fosse dar nela também? [Nota da Ana - depois que publiquei o post, minha leitora Juliana me mostrou que alguém acabou dando a matéria antes: o G1]

ESA – Sim, eu fiquei com medo!

NF – E fez o quê? Implorou pra enfermeira não deixar ninguém mais entrar no quarto? (risos)

ESA - (risos) Não. Bem, eu fiquei com medo, claro que alguém poderia encontrar a história também. Mas eu achava que isso não aconteceria. Um dos motivos é que, quando entrei no quarto e conheci a Eliana, fiquei com a nítida impressão de já ter visto ela em algum lugar. E já tinha mesmo. Ela já havia dado entrevistas para programas de televisão por ser pintora. Mas não imaginava que ela morava no HC desde a infância. Acho que isso era o fundamental. Se jornalistas já tinham estado lá e não tinham percebido a pauta, fiquei torcendo para que não percebessem justo agora.

NF – Foi fácil convencer seu editor de que essa era uma boa história?

ESA – Convencer minha editora –a Viviane Kulczynski– foi bem tranqüilo. Na verdade, ela me incentivou a fazer a reportagem. Essa é uma característica da equipe (Viviane, Paula Pereira e Luciana Constantino): acreditar no repórter, de verdade. Em outras oportunidades também recebi esse tipo de apoio.

NF – A matéria foi muito cortada? Pergunto isso porque, como o assunto é muito bom, desperta muito interesse. E senti falta de várias informaçôes (onde estão as famílias deles, quem paga as despesas, como ele faz para trabalhar etc.). Fiquei imaginando se elas teriam sido cortadas na hora da edição.

ESA – Para ser bem sincero, o resultado ficou muito aquém do que a história deles merecia. Claro que o texto foi editado, no entanto, não sacrificou informações relevantes. Toda e qualquer falta de informação é de minha inteira irresponsabilidade (risos).

Mas, falando sério, as poucas referências sobre as famílias foi uma questão que encontrei na hora de escrever.

Eles têm uma relação muito, muito delicada com suas famílias. Não dependem deles, afirmam que os amigos são a verdadeira família, mas deixam transparecer uma certa mágoa.

O Paulo faz questão de ressaltar que respeita seu pai, seus irmãos. O irmão mais novo vai visitá-lo com freqüência. Mas ele não teve o convívio necessário para ter uma relação verdadeira com a família. Não sei se acertei ao deixar isso de fora, mas me ocorreu que depois da matéria isso poderia ser algo ainda mais negativo na relação deles.

NF – Mas você não chegou, então, a discutir isso claramente com os entrevistados. Você não perguntou pra eles “Fiquei com a impressão de que há uma certa mágoa pela falta de contato. É isso? Vocês acham que seria um problema eu abordar no meu texto essa distância que há entre vocês e a família?” Chegou a pensar que poderia levantar essas informações com outras fontes? Ou mesmo assim ficou constrangido de escrever sobre o assunto?

ESA - Não, eu não os consultei. Tomei essa decisão sozinho. Por tudo o que ele disse, notei que ele evitava falar sobre isso, e indiretamente tive uma certeza de ir por esse caminho. Tive oportunidade de conversar com um amigo dos dois, o Edgard, que conheci em uma das vezes que estive lá. Uma pessoa bastante discreta que não queria aparecer na matéria, mas que me colocou a par de toda a situação.

Essa foi uma fonte importante, pois me deu ainda uma outra visão sobre a vida dos dois. Sobre vários aspectos. Questões como a sexualidade – que menciono na reportagem – também foram muito difíceis de extrair deles. Conversei com médicos e enfermeiros da UTI também.

Enfim, como disse, acho sinceramente que poderia ter ficado muito melhor. Algumas informações suprimi, outras não fui tão a fundo. Essa, aliás, é uma das coisas mais difíceis da nossa profissão: a escolha em função do espaço. Às vezes, editar é ter uma série de informações que julga fundamentais e se desesperar por não poder usar todas. Claro, quem desperdiça menos, faz um texto melhor. Espero chegar lá… 

NF – Você me contou que foi lá algumas vezes. Como equilibrar esse contato, principalmente numa história rica como essa? De alguma forma, não há como não se envolver com esses personagens. Por outro lado, é preciso deixar clara a fronteira profissional. Como você fez?

ESA - É verdade, esse é um problema. E com eles é ainda mais importante, porque é claro que eles não são bobos. Estão a vida inteira numa cama. Eles têm amigos que vêm, passam um tempo visitando, depois não aparecem mais. É um problema criar um laço forte e depois ver a pessoa desaparecer.

Nunca me fiz passar por amigo deles. Envolvimento é inevitável, mas não a ponto de dizer que somos amigos. Digo isso porque, no dia-a-dia das coberturas, um repórter até se faz passar por amigo para conseguir uma informação. Mas não era o caso, e eles têm um feeling sobre isso. Eles sabem quem são seus amigos de verdade.
 
NF – Você soube deles depois que a história saiu? Qual foi a repercussão?

ESA – A repercussão parece ter sido bem positiva. Teve um número alto de acessos no portal e algumas pessoas, inclusive você, entraram em contato comigo. No domingo, a Eliana me enviou uma mensagem dizendo que tinha gostado muito da matéria. Os enfermeiros, acho eu, compraram um jornal para cada um. Na segunda, falei com o Paulo que também parecia estar satisfeito com o resultado.

O Paulo me mandou uma mensagem no celular. Parece que um casal foi visitá-lo e talvez o coloque em contato com o Carlos Saldanha. Esse era o grande sonho dele.

Pra quem for ler o post da Ana Estela vai ver que a partir daí ela e o Emilio começam um papo sobre como cada um deles chegou ao jornalismo – visto que, como dito no início, ambos começaram a faculdade de Agronomia e depois descobriram que não davam pra coisa. Corto o Ctrl C aqui, porque me parece ser esta a parte que interessa. De qualquer modo, a pergunta de como surgiu a pauta foi respondida. O repórter correu atrás.

Autonomia, minha gente, autonomia!

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