O chorinho da água entre as pedras me distraía; lentamente eu voltava para casa pensando que tinha herdado, de tia Linda, a mania de dizer versos; que as gerações vão passando e apesar da evolução, das épocas serem diferentes e das pessoas serem outras, muitos hábitos vão ficando e vão sendo transmitidos de uns para outros, sucessivamente. Tudo que temos na alma e no corpo é herdado; nada é nosso, nada é pessoal. A força do nosso caráter, a luz do nosso pensamento, os traços do nosso rosto, vêm de outros, de outras gerações que passaram e deixaram. Tanto as virtudes como os defeitos, o conceito da honra ou a leviandade de sentimentos são apenas reflexos dos antepassados. Mesmo o que criticamos nos mais velhos, certos hábitos ou certas atitudes, aquilo que hoje recriminamos ou censuramos, seguiremos mais adiante, quando tivermos mais idade; e teremos as mesmas atitudes e os mesmos costumes, talvez com as modalidades diferentes ou com outra forma, mas o fundo será o mesmo.
DUPRÉ, Maria José. O romance de Teresa Bernard. São Paulo: Saraiva, 1967. cap. XVI, p. 130-131
