Todo mundo que é de Floripa e vai embora, especialmente pra São Paulo, costuma dizer que a coisa da qual sente mais falta é o mar. Eu não sou daqui: sou das coxilhas do Rio Grande, do pampa no noroeste gaúcho, distante mais de 400 km do Oceano Atlântico. Por isso não tenho grandes dependências do mar. Pra mim ele significa verão, férias, família reunida, areia no meio dos dedos do pé, fila pra tomar banho depois da praia. Às vezes passo dias sem me dar conta que moro no litoral.
Mas é bom saber que o mar está ali. Hoje mesmo passei um domingo bem estranho, meio deprê (como, aliás, vem acontecendo com uma freqüência perturbadora), meio desiludida com minha vida atual. Precisava fazer alguma coisa, acabar com aquela agonia de alguma maneira. Já almoçara no meu irmão sem poder curar a tristeza com a presença da minha sobrinha, que não estava. Em casa não podia ficar, porque aí o bode ia bater mesmo. Peguei o carro e me mandei pra praia.
Fui pra Jurerê dar uma olhada no apartamento que compramos – sim, saiu o negócio, finalmente. Olhar por fora, bem entendido, porque não tenho a chave e o porteiro não estava lá. Aproveitei e dei uma chegada na praia, onde gastei um tempo só olhando o mar… Não consegui mais tirar o sorriso da cara. As ondas quebrando, as cores da água, a areia arrastada pelo vento, a solidão… tudo me trouxe uma paz muito grande. Mesmo que junto com o som da arrebentação viesse o de uma rave que rolava ali por perto. Ok, nem tudo é perfeito.
Tem um trecho de Os Cus de Judas, do escritor português António Lobo Antunes, que diz assim: “O movimento das agulhas de tricô da minha mãe, segregando camisolas num tinir de floretes domésticos, possui pra mim o inesgotável encanto do fogo na lareira ou do mar, cuja monotonia sempre diversa me hipnotiza”.
Sei bem o que é ficar sentada por horas na frente do fogo em uma noite fria, só olhando a dança das chamas, a madeira lentamente virando cinzas, sentindo o cheiro de picumã e ouvindo o crepitar das lenhas. Por isso talvez eu sinta que essa frase resume algo que eu sempre soube mas nunca consegui traduzir em palavras: o fato de esses dois elementos, a água do mar e o fogo na lareira, tão contrários como a lua e o sol, exercerem o mesmo fascínio sobre mim. Eles são sempre iguais, mas sempre diferentes. Uma monotonia sempre diversa, e que hipnotiza.
E foi nessa hipnose que eu consegui melhorar de humor. Olhando pro mar, que é o que mais se aproxima do fogo na lareira dos invernos da minha infância.
Roberta disse
Te acompanhava faceira nessa conversa silenciosa com o mar. Isso é um convite.
=D
Bjos