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O motorista do último ônibus da linha

Uma vez começamos uma discussão sobre o que acontece com o motorista que dirige o último ônibus de uma linha. Como o cara vai pra casa depois de deixar o latão na garagem? Não lembro quem levantou a questão, mas sei que passamos um bom tempo sugerindo hipóteses furadas sem chegar a conclusão nenhuma.

Ontem eu desvendei a charada. Lá pela meia-noite e pouco, escorada numa pilastra do terminal esperando minha carona chegar, vi a cena mais engraçada dos últimos tempos. Um ônibus vindo pela avenida Paulo Fontes no sentido Terminal Rita Maria-Ticen estacionou em cima da faixa de segurança e abriu as portas pra deixar os passageiros saírem. Qual a minha surpresa quando saem do ônibus uns 15 motoristas uniformizados!

Eles brincavam uns com os outros, conversavam, estavam muito animados - animação de fim de expediente, saquei na hora. Passaram por mim com suas calças sociais pretas, suas camisas azuis com o logotipo da Transol e aquelas bolsas de tenista, bizarras e anacrônicas, que todos eles têm iguais. Ficaram me olhando, claro, como olham pra qualquer mulher, e eu baixei a cabeça e tentei a todo custo esconder uma risada que ameaçava tomar conta de mim. Afinal, eu descobrira o mistério e ainda tivera a chance de ver um monte de motorista de ônibus, esse ser odioso de cuja existência depende toda a minha vida, pagando de passageiro animadinho!

Taí a solução do mistério: o motorista do último ônibus de uma linha volta pra casa junto com os outros motoristas dos últimos ônibus das linhas, todos eles em um latão que os traz da garagem até o terminal. Só não me pergunte como volta pra casa o cara que traz os motoristas até o centro…

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Primeira flor do ano

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Vrummm vrummm, bip bip!

Bem que eu gosto duma onomatopéia, mas essa aí é indispensável pra contar a maior novidade de todos os tempos da minha vida no último mês: ganhei um carro! Um Ka preto, desses novos, lindo lindo lindo.

Cheguei em Panambi - tinha passado umas duas semanas em Floripa com minha irmã - lá pelas 6 da tarde do domingo. Meus pais estavam na frente da casa tomando chimarrão e olhando o (pouco) movimento, típica ação de domingos à tarde em cidades do interior do Rio Grande. Cumprimentei-os, deixei minha mala no quarto e voltei pra lhes fazer companhia. Muito inocentemente meu pai pediu que eu fosse buscar o chinelo dele na garagem.

- Ah, pai, tô cansada da viagem, dá um tempo…

- Vai lá, filha, eu também tô cansado, trabalhei o dia inteiro… – disse-me ele com uma cara de quem implora.

Ok, tudo bem. Fui pegar o chinelo na garagem. A porta da lavanderia estava fechada, como às vezes fica quando o portão da garagem está aberto para que não entrem moscas na casa. Por isso, não estranhei que a divisória da lavanderia estivesse cerrada e a abri sem pensar duas vezes.

Quase atropelei meu carro. Ele estava bem perto da porta porque do outro lado fica o carro da minha mãe e a garagem não é tão grande a ponto de sobrar espaço quando os dois automóveis estão lá dentro. Tomei um susto enorme. Não dava pra ver que carro era e fui direto na traseira: um Ka. Saí correndo da garagem e fui pra frente da casa, onde meus pais estavam:

- De quem é esse carro? É meu? É meu? – eu falava, tremia e quase chorava, um pouco por alegria e muito por medo de o carro não ser pra mim.

- É pro posto – meu pai disse (ele tem um posto de gasolina).

- Ah…

Fiquei estaqueada na sala. Meus pais já riam um pouco, minha irmã também. Mas eu não via nada disso, não entendia nada, só tentava esconder a decepção.

- Não é meu mesmo?

- Não… É teu mesmo, é teu…

Ah, daí virou festa. Corri abraçar e beijar todo mundo, achar a chave, abrir todas as portas, portinholas e compartimentos, sentar em todos os bancos, notar todos os detalhes… Eu já esperava que em algum momento depois de formada meu pai me desse um carro. Foi assim com meu irmão e com minha irmã. Mas os dois só ganharam o carro depois que estavam trabalhando, a fim de poderem sustentá-lo (é essa a filosofia do meu pai). Eu fui uma exceção em relação a eles, pois ainda sou uma estatística entre a universidade e o primeiro emprego. É mais privilégio, mas acarreta mais responsabilidade. A questão é: o que vou fazer com meu lindo, maravilhoso e novo Ka quando o combustível acabar?

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