Arquivo para Letrinhas

Rosa, meu amor

Ando numa fase bem punk aqui. Muito trabalho – tô com três pautas agora e mais quatro engatilhadas pra quando terminar essas – e muitas coisas enroladas. Não me sobra tempo pra olhar o sol lá fora, quanto mais pra escrever algo que não sejam perguntas para entrevistados. Mas resolvi quebrar o jejum e mandar um link que achei hoje na página principal do Estadão (mais um, aliás - pra quem não costuma mandar links, dois seguidos são um recorde). É um post do Daniel Piza, um cara de cujos comentários eu gosto bastante, falando sobre Guimarães Rosa, um dos meus escritores prediletos (como já falei aqui outra vez, quando comentei do meu conto predileto dele, Substância). Enjoy it.

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Poesia, eu?

Na sexta (?) eu e Robertinha discutíamos poesia. Eu contava a ela o quanto fico admirada diante de pessoas que escrevem poemas. Que pra mim isso parece coisa de outro mundo, de gente iniciada, superdotada, iluminada por Deus, sei lá. Ela me dizia que não tem nada a ver, que um dia ela sentou pra escrever e de repente viu que tinha feito um poema. Duvidei um pouco e pensei que comigo tal coisa nunca aconteceria. Nunca mesmo. Imagina eu fazendo poesia, mesmo que por descuido? Credo…

Ontem à noite, como acontece normalmente, eu viajava antes de pegar no sono. Talvez influenciada pela conversa da Robertinha, pelos poemas que trocamos depois via orkut ou pela pessoa que dormia ao meu lado, comecei a… enfim… nem sei se… é que assim… fiz um poema. Pronto, falei. Fiz ele todinho na minha cabeça. Era madrugada alta e a poesia meio que veio vindo, chegou de mansinho e era tão fácil encadear uma frase na outra que achei tudo muito natural.

Tudo que a Regininha sempre falou sobre poesia - aquela história de “cometer um poema”, de pegar logo um papel pra escrevê-lo quando ele surge, de não deixá-lo escapar – subitamente fez sentido. Porque meu primeiro poema me assaltou. Essa é a palavra, me ASSALTOU. Me arrebatou. Não consegui parar de pensar nele até completar a última frase.

O sono, o contexto e a preguiça fizeram com que meu primeiro poema se perdesse no tempo e no espaço pra sempre. Quando tento lembrar dele agora me vêem frases dispersas, palavras perdidas, nada que faça muito sentido. Talvez ele fosse ruim, ou péssimo mesmo, mas foi o primeiro. E o primeiro a gente nunca esquece. Ou não deveria esquecer…

Só sei que era sobre um braço pesando na curva da minha barriga, uma respiração ritmada nos meus cabelos e uma perna roçando na minha.

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Pagando dívidas com juros

A última vez que postei (faz tanto tempo que nem mais verdade é…) linquei uma matéria que tinha saído no Estadão. Dentre os comentários tinha um da Sara, avisando que no Novo em Folha saíra uma entrevista com o repórter justamente sobre a matéria que eu postara. O Novo em Folha é um blog mantido pela Ana Estela, editora de treinamento da Folha de São Paulo – a mulher por trás do trainee do jornal – e sempre tem coisas bem legais sobre todas as etapas da produção de uma reportagem, desde a pauta até a edição. (E o melhor: ela também posta sobre matérias que saíram em outros jornais, como nesse caso, em que a matéria foi publicada no Estadão.)

No post que a Ana Estela escreveu sobre a matéria ela diz que a leu e ficou curiosa pra saber como o repórter Emilio Sant’Anna tinha achado a pauta. De fato também foi uma coisa que me chamou a atenção – como nunca ninguém tropeçou nesse cara?! Essa questão me veio especialmente porque vai bem ao encontro do que eu e a Tici fizemos no nosso TCC, catar pautas em cidades à beira do São Francisco em Pernambuco. A única diferença, nesse caso, é que não estamos em uma cidadezinha de nada perdida no sertão, mas em um dos maiores hospitais da América Latina. É aquela coisa, no jornalismo a gente se acostuma a cumprir as pautas que o editor manda sem pensar muito que ao olhar pro lado é bem capaz de acharmos histórias maravilhosas.

 A entrevista da Ana Estela com o repórter Emilio Sant’Anna eu chupei do post do Novo em Folha, de 31/01/2008.

Fiquei muito curiosa para entender como foi, afinal, que o Emílio encontrou essa história. Abaixo, segue uma conversa que tive, por e-mail e telefone, com esse repórter de 28 anos que nasceu em Botucatu (SP) e, como eu, estudou agronomia antes de virar jornalista.

Novo em Folha – Como você descobriu a pauta? Parece incrível pra mim que um homem viva há 39 anos no HC e ninguém nunca tenha sabido disso!

Emilio Sant’ Anna – Essa pauta surgiu no ano passado. Fiz uma matéria sobre uma UTI especial para crianças que têm pouquíssimas chances de sair de lá algum dia. Depois disso fiquei curioso para saber qual era a outra ponta dessa história: os adultos que passam a vida em um hospital. Acabei chegando ao Paulo e a Eliana.    

NF – Você percebeu de cara que era uma ótima história?

ESA -  Percebi de cara que poderia render uma boa pauta por um motivo: a história deles é muito boa, só precisava de alguém para contar. Quando saí do quarto dos dois fiquei louco para escrever logo a história, mas queria um tempo maior para conhecer mais da vida deles. Quis “mergulhar” o máximo possível na rotina deles. Por esse motivo, confesso, esperei para poder fazê-la.

Uma semana antes de sair de férias, fui ao hospital para entrevistá-los.  Voltei no primeiro dia das minhas férias e passei a tarde inteira com eles, ultrapassando o horário de visitas e ainda voltei mais uma vez. Isso me ajudou a entender um pouco do mundo deles, suas necessidades e, principalmente, suas angústias.

Da última vez que fui lá, acabei conversando por um bom tempo sobre coisas diversas, não só sobre a vida deles.

Mas tem uma coisa: não queria me passar por amigo deles. Eles sabiam o que eu estava fazendo ali, apenas procurei deixar eles à vontade e eu também. 

NF – Você não ficou com medo de ser furado? Com uma história tão boa, não teve medo que alguém fosse dar nela também? [Nota da Ana - depois que publiquei o post, minha leitora Juliana me mostrou que alguém acabou dando a matéria antes: o G1]

ESA – Sim, eu fiquei com medo!

NF – E fez o quê? Implorou pra enfermeira não deixar ninguém mais entrar no quarto? (risos)

ESA - (risos) Não. Bem, eu fiquei com medo, claro que alguém poderia encontrar a história também. Mas eu achava que isso não aconteceria. Um dos motivos é que, quando entrei no quarto e conheci a Eliana, fiquei com a nítida impressão de já ter visto ela em algum lugar. E já tinha mesmo. Ela já havia dado entrevistas para programas de televisão por ser pintora. Mas não imaginava que ela morava no HC desde a infância. Acho que isso era o fundamental. Se jornalistas já tinham estado lá e não tinham percebido a pauta, fiquei torcendo para que não percebessem justo agora.

NF – Foi fácil convencer seu editor de que essa era uma boa história?

ESA – Convencer minha editora –a Viviane Kulczynski– foi bem tranqüilo. Na verdade, ela me incentivou a fazer a reportagem. Essa é uma característica da equipe (Viviane, Paula Pereira e Luciana Constantino): acreditar no repórter, de verdade. Em outras oportunidades também recebi esse tipo de apoio.

NF – A matéria foi muito cortada? Pergunto isso porque, como o assunto é muito bom, desperta muito interesse. E senti falta de várias informaçôes (onde estão as famílias deles, quem paga as despesas, como ele faz para trabalhar etc.). Fiquei imaginando se elas teriam sido cortadas na hora da edição.

ESA – Para ser bem sincero, o resultado ficou muito aquém do que a história deles merecia. Claro que o texto foi editado, no entanto, não sacrificou informações relevantes. Toda e qualquer falta de informação é de minha inteira irresponsabilidade (risos).

Mas, falando sério, as poucas referências sobre as famílias foi uma questão que encontrei na hora de escrever.

Eles têm uma relação muito, muito delicada com suas famílias. Não dependem deles, afirmam que os amigos são a verdadeira família, mas deixam transparecer uma certa mágoa.

O Paulo faz questão de ressaltar que respeita seu pai, seus irmãos. O irmão mais novo vai visitá-lo com freqüência. Mas ele não teve o convívio necessário para ter uma relação verdadeira com a família. Não sei se acertei ao deixar isso de fora, mas me ocorreu que depois da matéria isso poderia ser algo ainda mais negativo na relação deles.

NF – Mas você não chegou, então, a discutir isso claramente com os entrevistados. Você não perguntou pra eles “Fiquei com a impressão de que há uma certa mágoa pela falta de contato. É isso? Vocês acham que seria um problema eu abordar no meu texto essa distância que há entre vocês e a família?” Chegou a pensar que poderia levantar essas informações com outras fontes? Ou mesmo assim ficou constrangido de escrever sobre o assunto?

ESA - Não, eu não os consultei. Tomei essa decisão sozinho. Por tudo o que ele disse, notei que ele evitava falar sobre isso, e indiretamente tive uma certeza de ir por esse caminho. Tive oportunidade de conversar com um amigo dos dois, o Edgard, que conheci em uma das vezes que estive lá. Uma pessoa bastante discreta que não queria aparecer na matéria, mas que me colocou a par de toda a situação.

Essa foi uma fonte importante, pois me deu ainda uma outra visão sobre a vida dos dois. Sobre vários aspectos. Questões como a sexualidade – que menciono na reportagem – também foram muito difíceis de extrair deles. Conversei com médicos e enfermeiros da UTI também.

Enfim, como disse, acho sinceramente que poderia ter ficado muito melhor. Algumas informações suprimi, outras não fui tão a fundo. Essa, aliás, é uma das coisas mais difíceis da nossa profissão: a escolha em função do espaço. Às vezes, editar é ter uma série de informações que julga fundamentais e se desesperar por não poder usar todas. Claro, quem desperdiça menos, faz um texto melhor. Espero chegar lá… 

NF – Você me contou que foi lá algumas vezes. Como equilibrar esse contato, principalmente numa história rica como essa? De alguma forma, não há como não se envolver com esses personagens. Por outro lado, é preciso deixar clara a fronteira profissional. Como você fez?

ESA - É verdade, esse é um problema. E com eles é ainda mais importante, porque é claro que eles não são bobos. Estão a vida inteira numa cama. Eles têm amigos que vêm, passam um tempo visitando, depois não aparecem mais. É um problema criar um laço forte e depois ver a pessoa desaparecer.

Nunca me fiz passar por amigo deles. Envolvimento é inevitável, mas não a ponto de dizer que somos amigos. Digo isso porque, no dia-a-dia das coberturas, um repórter até se faz passar por amigo para conseguir uma informação. Mas não era o caso, e eles têm um feeling sobre isso. Eles sabem quem são seus amigos de verdade.
 
NF – Você soube deles depois que a história saiu? Qual foi a repercussão?

ESA – A repercussão parece ter sido bem positiva. Teve um número alto de acessos no portal e algumas pessoas, inclusive você, entraram em contato comigo. No domingo, a Eliana me enviou uma mensagem dizendo que tinha gostado muito da matéria. Os enfermeiros, acho eu, compraram um jornal para cada um. Na segunda, falei com o Paulo que também parecia estar satisfeito com o resultado.

O Paulo me mandou uma mensagem no celular. Parece que um casal foi visitá-lo e talvez o coloque em contato com o Carlos Saldanha. Esse era o grande sonho dele.

Pra quem for ler o post da Ana Estela vai ver que a partir daí ela e o Emilio começam um papo sobre como cada um deles chegou ao jornalismo – visto que, como dito no início, ambos começaram a faculdade de Agronomia e depois descobriram que não davam pra coisa. Corto o Ctrl C aqui, porque me parece ser esta a parte que interessa. De qualquer modo, a pergunta de como surgiu a pauta foi respondida. O repórter correu atrás.

Autonomia, minha gente, autonomia!

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Sangue quente

Essa semana terminei A sangue frio, do Truman Capote, e hoje a Keka me disse que tinha começado Os Eleitos, do Gay Talese. Conversávamos no chat do Gmail e não deu pra discutir sobre os livros porque eu estava de saída (fui nos Correios mandar a documentação pra receber a grana do freela - lembram daquele freela?). O negócio é que… cara, a gente devia ter lido essas coisas há muito tempo (como bem disse a Regininha)!

Não só por serem grandes exemplos do que há de melhor no new journalism, como pelos recursos estéticos e de apuração que os caras usam. São duas grandes reportagens que todo mundo deve ler, independente da profissão, mas pra jornalista é um prato cheio. Os links, os recortes, os flashbacks super bem colocados, as descrições, a apuração documental e o modo como ela foi pulverizada no decorrer do texto…

Mas… será que se eu tivesse lido o Capote quando era caloura teria aproveitado do mesmo jeito que aproveito hoje? A resposta é não. Teria lido sem prestar atenção no texto, na apuração, na edição – só teria sentido, como só sentimos quando lemos por prazer.

Claro, isso não tira o demérito de ter me formado com uma mancha no passado – a não leitura dos clássicos do jornalismo. Que saída então? Reler, reler sempre. Daqui a um ano talvez eu leia A sangue frio novamente e, se o fizer, certamente será com outros olhos. 

Tem um conto do Guimarães Rosa chamado Substância (tá no Primeiras Estórias). Eu o amo – tanto que o papel de parede do meu notebook é um trecho dele. Toda vez que fico triste ou quando me falta o que fazer (ou a vontade de fazer algo), releio Substância. E toda vez ele é um pouco diferente, mais leve, mais pesado, mais superficial, mais profundo. Mas a quem engano? O conto é sempre o mesmo; quem muda é a gente.

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Ai, Danuza!

Ando meio… sei lá. Está tudo se juntando: a vaga no Kzuka que não sai, o nervosismo de ter que ir pra São Paulo sem lenço e sem documento, a [enorme] saudade dos meus amigos de Floripa (poucos deles em Floripa ainda) e alguns percalços com meus amigos de infância, ocasionados pela minha inexistente capacidade de lembrar que preciso pisar em ovos quando estou em Panambi.

Pus a cabeça no travesseiro ontem à noite e não consegui dormir com esse monte de angústias. Solução? A de sempre: ler até perder a consciência ou o livro acabar. Nesse caso, o livro acabou: Quase tudo, as memórias da Danuza Leão, que a Tici e a Keka me haviam dado no aniversário do ano passado. (Quando meu pai viu a dedicatória, a melhor que recebi na vida, e a data em que tinha sido feita, disse: “E não leu ainda? Mas que vergonha!”.)

Sempre gostei da Danuza. Comecei a ler as crônicas dela quando meu irmão assinava a Folha e continuei lendo-as quando vinha pra casa e folheava as Cláudias da minha irmã. A conquista final aconteceu quando fazíamos oficina de crônicas com a Regininha. Mandei-lhe um e-mail com algumas perguntas sobre o trabalho de cronista e ela respondeu mais ou menos dizendo que não tinha capacidade de respondê-las. Não sei se foi preguiça (porque as perguntas eram complexas e cansativas) ou qualquer coisa, mas a simplicidade com que a Danuza me respondeu, sendo que podia simplesmente ter me ignorado, me pegou de jeito e pra sempre. Sou assim mesmo, me vendo barato.

Quando as gurias me deram o livro, fiquei primeiro fascinada pelas fotos, que são de uma plástica linda - a Danuza contribui, ela era lindíssima (e é ainda). E só de saber que ela era irmã da Nara Leão e foi casada com o Samuel Wainer eu já tinha muita vontade de ler. Mas sempre fui postergando, postergando… Até que, antes de vir pra Panambi nessas férias, olhei pra ele na estante e prometi que desse verão não passava. E não passou.

A Danuza escreve muito bem, de uma forma fluida e simples. A gente vai surfando pelas páginas (pra usar uma imagem da Daisi em uma aula de Redação II). E são tantos detalhezinhos deliciosos, tantos meandros e histórias de bastidores… No final o negócio fica pesado, porque ela fala da morte do filho de uma maneira pungente que faz chorar (apesar de que eu não sou parâmetro, choro em tudo quanto é livro). Mas ela arremata super bem, dá um encerramento inteligente e a gente fecha o livro com um sorriso nos olhos.

Agora comecei A sangue frio. O quê, jornalista que ainda não leu A sangue frio?! Mas que vergonha, como diria meu pai.

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